Em que medida o sucesso do autor revela a qualidade literária de uma obra é questão de difícil resposta. Se é verdade que raramente são as obras-primas as primeiras a atingir o grande público e que muitos bons escritores têm de lutar para serem publicados, já Truman Capote era venerado nos Estados Unidos como uma estrela de cinema, Jorge Amado gozou de enorme popularidade e Érico Veríssimo foi o escritor mais vendido do seu tempo no Brasil.
O que é certo é que o sucesso traz vozes admiradoras e vozes críticas em partes quase iguais. Letícia Wierzchowski, escritora brasileira com origens na Polónia, conhece os dois lados da medalha. Com dezassete livros publicados – seis livros infantis e onze romances, entre os quais o famoso A Casa das Sete Mulheres, que serviu de base à série televisiva homónima da Rede Globo – a escritora de 39 anos aprendeu ao longo dos anos a olhar com distanciamento a crítica. “Eu já fui elogiada e criticada muitas vezes e agora sei lidar com isso”, afirmou numa sessão literária realizada na Embaixada do Brasil em Berlim, no passado dia 29 de setembro de 2011, que contou com a moderação da Professora Lígia Chiappini, do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim.

Letícia Wierzchowski (esq.) e Prof.Lígia Chiappini (dir.) na sessão literária promovida pela Embaixada do Brasil em Berlim.
Começou a escrever quase por acaso, enquanto trabalhava numa confeção de moda montada por ela própria e onde julgou por algum tempo poder satisfazer o seu impulso criador. “Eu passei a minha vida inteira buscando uma forma de me expressar, até encontrar o processo criativo como um caminho. Fui uma criança muito criativa, ficava buscando os vizinhos da rua para montar peças de teatro e gostava muito de ler. Fiz um processo de exclusão até encontrar a criação literária.” Antes de montar uma empresa de desenho de moda tinha passado brevemente pelo curso de arquitetura. Um dia, terminado o expediente na confeção e para iludir a longa espera por uma pessoa que vinha muito atrasada, começou a escrever e nunca mais parou. “Encontrei uma sensação de pura libertação. Para escrever eu não precisava de nada, só de uma folha de papel. Eu fiquei impressionada com a liberdade, a possibilidade criativa era infinita. A partir daí todos os dias eu passei a ficar um tempo a mais na confeção para escrever, até que me dei conta que eu estava indo lá para escrever e não mais para trabalhar.” O seu primeiro romance, O Anjo e o Resto de Nós, foi publicado em 1998 graças a um edital da Prefeitura de Porto Alegre, que selecionava e premiava obras de autores inéditos. “Se bem que publicar um livro não seja uma coisa cara, eu preferi publicar o meu primeiro livro de uma forma oficial, correta, porque queria que as pessoas encontrassem os meus livros nas livrarias, em vez de fazer uma edição de autor em que cada amigo ganhasse um romance e depois nunca mais ninguém encontrasse nada. Eu queria ser uma escritora.”
A ambição e o gosto pela escrita deram frutos rápidos. Um ano depois surgiam A Prata do Tempo e Eu@teamo.com.br. Este último é na realidade a compilação de vários emails trocados entre a escritora e o seu marido Marcelo Pires, que conheceu pela internet, desde o primeiro email até à decisão do casamento. “Uma das pessoas que elogiou muito o meu primeiro romance foi a Martha Medeiros [conhecida escritora e jornalista brasileira], que eu na época não conhecia pessoalmente. Ela era muito amiga do Marcelo e lhe apresentou o livro. Um dia recebi um email – foi o primeiro email que eu recebi de um leitor – e me casei com ele”, diz a escritora gaúcha entre risos.

Alguns dos livros da escritora Letícia Wierzchowski.
“Eu admiro muito o Érico Veríssimo e o Jorge Amado. Eu sou uma autodidata, na realidade eu sou uma leitora. Li muito, desde pequena, e li tudo o que eu quis sem ninguém para me orientar. Eu acho que me assemelha a estes dois escritores o gosto pela personagem. A literatura moderna que se faz hoje em dia no Brasil está sofrendo de uma certa anemia. Todo o mundo fica falando o tempo inteiro dos problemas do homem moderno na metrópole, sempre olhando o seu umbigo. Eu me considero uma contadora de histórias, tal como eram o Érico Veríssimo e o Jorge Amado, e tenho muito orgulho nisso.“ Essas histórias encontraram terreno fértil no seu primeiro best-seller, A Casa das Sete Mulheres, publicado em 2003, e que graças à adaptação para televisão foi durante 14 semanas o livro mais vendido no Brasil. A ideia é original: contar a Revolução Farroupilha do Rio Grande do Sul [que opôs de 1835 a 1845 as tropas imperiais brasileiras às tropas revolucionárias, chamadas farroupilhas, que pretendiam a independência do Sul do Brasil] do ponto de vista das mulheres, neste caso as da família do líder revolucionário Bento Gonçalves, que estavam confinadas a uma casa à espera do fim da guerra.
“Quando eu escrevi esse romance a minha intenção foi olhar um assunto que é extremamente conhecido, principalmente no sul do Brasil, mas de um ponto de vista diferente: o olhar feminino da guerra. A narradora é a Manuela, sobrinha do general Bento Gonçalves. Foi uma mulher muito bonita, de uma das famílias mais importantes do Sul. Apaixonou-se por Giuseppe Garibaldi [o importante líder revolucionário italiano que reunificou a Itália], que quando chegou ao Sul do Brasil para ajudar a fazer a revolução ao lado dos Farroupilhas não era uma figura histórica importante, ainda era só um fugitivo italiano com a cabeça a prémio”. Garibaldi, que era antes de tudo marinheiro, ajudou os revolucionários brasileiros a construir barcos que lhes permitissem o acesso ao mar e o controlo da Lagoa dos Patos. Manuela envolve-se emocionalmente com ele, mas o italiano acaba por se casar com Anita Garibaldi e a certa altura desiste da guerra, que já estava perdida, e vai para o Uruguai. Manuela passa a ser apenas um capítulo passageiro. “Este livro olha as coisas por um outro viés: aqui, a Manuela é a personagem mais importante, enquanto que no grande contexto histórico ela não tinha importância nenhuma.” A sobrinha de Bento Gonçalves nunca se refez deste amor não correspondido e anos mais tarde acabou por enlouquecer. Ficou conhecida como “a noiva do Garibaldi”, vestida de branco, sentada à janela esperando o regresso de Giuseppe Garibaldi. Esse assunto foi retomado por Letícia Wierzchowski no romance O Farol do Pampa (2004).

A escritora Letícia Wierzchowski autografando os seus livros.
Para além dos temas históricos, outro tema frequente são as raízes polacas da escritora, tratadas em três romances: Cristal Polonês (2003), Uma Ponte Para Terebin (2005) e Os Getka (2010). “Quando eu era criança morei algum tempo na casa do meu avô polonês e isso me marcou muito. O meu avô emigrou para o Brasil em 1936, três anos antes de a Polônia ser invadida e de eclodir a 2ª Guerra Mundial. Mais tarde voltou para a Europa e lutou com os aliados na Primeira Divisão Blindada Polonesa. Quando a guerra acabou ele ainda ficou um tempo aquartelado em Londres, mas não pôde entrar na Polônia, que já era soviética, e só reviu os pais dele passados 35 anos. Depois da guerra terminar ele foi para o sul do Brasil e a minha mãe já nasceu lá.”
“O meu avô tinha muitas saudades da Polônia. Em casa dele só se falava polonês, ele era extremamente católico e se respeitava o calendário polonês, comia-se piroguis.... Toda vez que atracava um navio polonês no porto de Porto Alegre, o meu avô comprava toda a carga, seja ela qual fosse, e colocava na casa. Ele ajudou muitos emigrantes poloneses a vir para o Brasil. Depois da guerra havia muitos soldados que tinham ficado sem nada e o meu avô dava-lhes emprego na empresa dele. Eu fiquei com aquela casa e com o meu avô na cabeça. Sempre quis escrever um romance sobre ele.”
Esse sonho concretizou-se com Uma Ponte Para Terebin. Já no último romance, Os Getka, as raízes polacas servem mais ao enquadramento do que à trama: “É a história de um escritor que tem um bloqueio criativo e começa a repensar e relembrar a sua vida, os verões da infância passados na casa da praia e do seu amor de então.”
Letícia Wierzchowski tem-se igualmente afirmado na literatura infantil, com seis livros publicados: “Comecei a escrever para crianças com a chegada do meu primeiro filho. Quando se tem filhos pequenos a infância volta para dentro da sua vida e é natural querer escrever sobre isso. Hoje eu tenho dois meninos, de 10 e 3 anos. Escrever para crianças é uma coisa de que eu gosto muito.”
O seu próximo trabalho será precisamente um livro para crianças, chamado O Menino e Seu Irmão, que tem a particularidade de as ilustrações terem sido bordadas pela escritora e depois fotografadas. Para além disso, acaba de fazer em parceria com Tabajara Ruas a adaptação para cinema da trilogia de Érico Veríssimo O Tempo e o Vento, que começará a ser filmada em 2012.
Com 39 anos, dois filhos, 17 livros publicados e muitos projetos, uma coisa se pode dizer desta mulher criativa que encontrou na escrita o seu caminho: chegou para ficar.
Texto: Inês Thomas Almeida
Com um agradecimento especial à Madalena Simões pela revisão do texto.
5.10.2011
por BERLINDA
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