Na internet portuguesa que frequento falava-se muito disso, do grande 15O, dia de manifestações em vários países. Durante uns tempos pensei que seria sobretudo uma questão norte-sul, protestos contra as políticas de austeridade impostas a alguns países para que possam recuperar a confiança dos mercados, e que os alemães não se interessariam nada por isso. Contudo, a meio da semana passada dei-me conta de que haveria também uma manifestação dessas em Berlim e, curiosa e solidária, decidi participar.
Antes da manifestação fui-me informar, num encontro da ATTAC. Em boa hora: fiquei a saber que isto é tudo menos uma questão norte-sul. Pelo contrário: a brutal concentração de capital e o modo como o sistema financeiro se tem conseguido organizar para redistribuir a riqueza em seu proveito e contra os interesses da absoluta maioria da população mundial são problemas que nos tocam a todos e que urge resolver.

Cerca de 10 mil pessoas manifestaram-se em Berlim a 15 de Outubro de 2011 frente ao Reichstag. Foto (c) The Legendary Crc.
O encontro da ATTAC continuou com um desfile rumo à Chancelaria, onde já se encontravam os manifestantes que tinham vindo da Alexanderplatz. E eu vi-me repentinamente com uma enorme faixa nas mãos, onde se lia "o mundo não é uma mercadoria" – o que me valeu, pelo caminho, sorrisos e acenos em quantidade tal como já não me acontecia desde que atravessei a cidade numa pequena coluna de Trabis. A meu lado, uma senhora já de certa idade comentava "como é que a Angela Merkel compatibilizará o que faz com a sua consciência de cristã?" e criticava os governos europeus, os políticos que se deixam enrolar pelos mercados. Depois, com os olhos muito brilhantes, lembrou a manifestação de 900 000 na Alexanderplatz, a 4 de Novembro de 1989. A manifestação mais especial de toda a sua vida.

Foto (c) The Legendary Crc.
Chegámos à Chancelaria, onde havia já milhares de manifestantes. À minha volta falavam em referendo sobre a crise do euro, na necessidade de novas eleições. Um camião largava música tecno, muitos dançavam. Um polícia de choque olhava para nós. Sozinho, junto ao camião tecno. Onde estariam os colegas? Gostei do sintoma de normalidade da manifestação que aquele polícia sozinho representava: se nós fôssemos violentos, eles seriam muitos e de ar feroz. Também tive pena dele, que estava ali obrigado a ouvir música ensurdecedora sem sequer poder dançar. Eu não estava obrigada, e bem queria fugir, mas não podia deixar a minha faixa enorme "o mundo não é uma mercadoria" só nas mãos da manifestante que levava a outra ponta.
A música parou, os discursantes começaram a falar, mas não consegui ouvir nada. Conversei com uma das participantes do encontro da ATTAC, que ficou chocada ao saber que em Portugal uma das primeiras medidas de poupança foi cortar os abonos de família, a maior parte deles já de si ridículos (35 euros!). “Não fazia ideia”, disse ela. Pois é, ninguém na Alemanha faz ideia do modo como os portugueses estão a pagar por esta crise.

Foto (c) The Legendary Crc.
A manifestação seguiu para o Reichstag, onde se fazia um teatro campal que descrevia os acontecimentos dos últimos meses. O público aplaudiu imenso quando uma tenda entrou no recinto e vaiou os atores que faziam o ingrato papel de mercados. O ambiente era de muita abertura, de uma certa alegria e descontração, de grande solidariedade. O edifício do Parlamento estava cercado de grades e nas escadas havia polícias de choque muito empertigados. Parecia uma provocação àquela manifestação tão pacífica e alegre. Será preciso exibirem-se desta maneira ameaçadora perante pessoas que estão apenas a exprimir o que pensam? Mais tarde soube que, antes da chegada do meu grupo, um grupo de 200 manifestantes tinha saltado as grades e subido as escadas gritando "occupy Bundestag!" É uma pena haver quase sempre pessoas que dão cabo do caráter pacífico de iniciativas destas. Não podiam lembrar-se de occupy Bundestag noutro dia qualquer, em vez de virem torpedear as manifestações alheias?

Foto (c) The Legendary Crc.
A nossa faixa "o mundo não é uma mercadoria" atraía as pessoas, turistas que vinham ter connosco e pediam para traduzir, ou outros manifestantes que falavam da ATTAC. Um homem ficou à conversa. Contou-nos - com os olhos a brilhar muito - que a melhor manifestação da vida dele foi a dos 900 000 na Alexanderplatz, no tempo em que ainda tinham bons motivos para morrer de medo. Depois criticou Angela Merkel, disse que muitos conhecidos seus sentiam ter voltado ao tempo do Politbüro, do partido único e da RDA. Insinuou que Angela Merkel teria sido colaboradora da Stasi e até podia ser o Guillaume do Kohl. Eu sorri: teorias da conspiração? O sarilho em que estamos metidos já é suficientemente grande, não precisamos de começar a descarrilar para aí.
Olhei para os cartazes à minha volta. A famosa frase “Nada é mais poderoso que uma ideia quando chega a sua hora” agitava-se como uma esperança; noutro cartaz lia-se “nós somos um povo”, palavra de ordem que fez todo o sentido em 1989 no contexto da Alemanha dividida e que faz todo o sentido no mundo globalizado deste nosso 2011. O grupo à minha volta continuava a falar dos outros tempos, na RDA, quando os manifestantes tinham motivos muito sérios para temer represálias graves. Olhei-os com admiração: eles conseguiram mudar o seu mundo. Talvez não o tenham mudado para tão bem quanto tinham sonhado, mas ousaram lutar por aquilo que lhes era caro, correndo mesmo risco de vida, arriscando o bem-estar dos seus filhos. E nós: saberemos mudar no nosso mundo aquilo que dizemos estar muito errado?

Foto (c) The Legendary Crc.
Devolvi à ATTAC a minha metade da faixa e fui para casa, onde cheguei um pouco diferente da que de lá tinha saído.
Com um agradecimento especial a The Legendary Crc pela gentil cedência das fotos, e à Madalena Simões pela revisão do texto.
17.10.2011
por Helena Araújo
Helena Araújo (*1963), casada, dois filhos. Estudou economia na Faculdade de Economia do Porto. Vive na Alemanha desde 1989, e em Berlim desde 2007, onde trabalha como tradutora e guia-intérprete. Autora do blogue “dois dedos de conversa” (*2004), e co-autora do livro “O Fio À Meada - Diálogos Imprevistos”.
Nada é mais poderoso do que uma ideia quando chega a sua hora
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